Qual é o momento para começar a planejar a sucessão?

Por Carla Bottino

Essa é uma pergunta freqüente. As pessoas querem saber qual é o melhor momento para preparar a sucessão, e costumo dizer que o momento é agora, independente da idade dos filhos do dono da empresa.

Claro que uma empresa em fase inicial vai ter como desafio sobreviver em um mercado globalizado, super competitivo. Alguns dados mostram que a cada 10 empresas abertas, depois de 5 anos apenas 3 continuam “na ativa”, as outras 7, por motivos vários, encerraram as suas atividades.

Com o passar do tempo, a empresa cresce e surge a necessidade de profissionalizar a empresa. E profissionalizar a empresa não significa contratar profissionais não familiares no mercado de trabalho, mas profissionalizar a gestão da empresa, conseguir delimitar as fronteiras existentes entre família e empresa e colocar a família a serviço da empresa. E nesse cenário, nunca é cedo para começar a planejar a sucessão.

Planejar a sucessão está diretamente relacionado com preparar os sucessores. Atenção, herdeiro e sucessor não são sinônimos! O herdeiro é quem vai herdar a empresa, o sucessor é quem vai dirigi-la, administrá-la. E, é pensando nisso que os pais devem sempre conversar com os seus filhos sobre o negócio.

É importante que as crianças conheçam a empresa e reconheçam que aquele lugar é um lugar de trabalho sério. Muito provavelmente é a empresa da família que garante o sustento dessas pessoas, mas os filhos devem saber que não devem tratar a empresa como a galinha dos ovos de ouro, se os membros da família não se relacionarem com a empresa de forma profissional, a tendência é que o negócio não prospere.

Também é importante facilitar o diálogo entre os membros da família. Temas como trabalho, dinheiro, carreira e sucesso devem ser discutidos de forma clara e transparente. Os planos para o futuro também não devem ser deixados para o futuro, fazemos planos hoje do que queremos ter ou ser no nosso futuro.

O planejamento da sucessão não é um evento pontual, mas uma atitude que deve (ou deveria) ser adotada em todas as famílias que têm uma empresa. Por isso, nunca é cedo para fazer tal planejamento e os temas serão abordados da forma como as crianças e adolescentes puderem compreender.

O “como” planejar a sucessão em cada momento do ciclo de vida da família

Dependendo da faixa etária da geração mais nova (a que deve ser preparada) algumas ações podem ser implementadas.

Quando os membros dessa geração mais nova ainda são crianças, o cuidado maior deve vir de casa, dos pais. Os filhos aprendem a partir da observação daquilo que seus pais (que ainda são seus heróis) fazem. Aquela frase “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” não funciona! Na realidade o que fica registrado na cabecinha das crianças é o que os seus pais fazem no cotidiano.

Em algumas famílias as crianças aprendem, desde cedo, que “é importante trabalhar”, que “o dinheiro é a recompensa pelo trabalho sério”, que “não dá pra ter tudo o que a gente quer”. Em outras famílias, os pais, por acreditarem que o mundo já é duro e cruel o suficiente, ou por se sentirem culpados por não estarem tão presentes e tão disponíveis quanto gostariam, acabam mimando seus filhos … É como se essas crianças vivessem em uma bolha, afastadas de realidade. Se elas não aprenderem a lidar com os sentimentos de perda e de frustração em casa, com pessoas queridas os apoiando, vai ser mais difícil lidar com tais sentimentos no futuro.

Quando os filhos já são maiores podem participar de iniciativas formais, como os grupos de herdeiros, e podem participar de discussões, em casa, que envolvam “gastos/investimentos” como as próximas férias, a compra do carro novo e até de encontros em que o assunto seja o negócio da família. Isso pode ser feito de uma forma mais direta – explicando como as decisões são tomadas ou falando sobre os clientes, fornecedores, ou, ainda, de uma forma indireta, com questões mais amplas sobre empreendedorismo, análise de setor, planejamento de negócios, inovação, tendências etc.

Se os membros dessa geração mais nova já trabalham na empresa, mas ainda não têm poder de decisão podem participar de uma espécie de Conselho – o Conselho Jovem – com o objetivo de discutir aspectos do negócio. Eles são observadores participantes da gestão da empresa.

Outra questão é a freqüência desses encontros. Eles devem acontecer de acordo com a disponibilidade e, principalmente, de acordo com o interesse dos envolvidos na preparação.

Nada de discursos contraditórios!

Na realidade os filhos aprendem com o que os pais fazem e com o que eles dizem, Por disso, vou deixar uma dica que vale sempre – atenção com as mensagens contraditórias! Cuidado com elas!

Alguns pais, empresários, ao mesmo tempo em que desejam que seus filhos possam trabalhar na empresa, querem dar a eles a possibilidade de cursarem qualquer curso de graduação e seguirem uma carreira independente da empresa da família.

Alguns jovens se sentem sem saída, pois, ao mesmo tempo em que, seus pais dizem “escolham o curso, a carreira que quiserem”, eles dizem, “quando você vier trabalhar na empresa da família …”

Costumo dizer que substituir o quando pelo se daria uma maior liberdade para eles escolherem o caminho que realmente desejam.

É muito importante que exista um canal de comunicação na família e que as pessoas possam falar sobre o que querem fazer no futuro. Por uma série de razões, esses assuntos são adiados até o momento de preencher a inscrição do vestibular.

Então, para quem tem filhos, em especial no ensino médio, duas dicas: 1) converse com as crianças / adolescentes sobre as carreiras, as profissões, suas expectativas para o futuro deles, o que eles esperam e 2) evite os discursos contraditórios!

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