O caso Matarazzo – 11/02/2009

O caso do grupo Matarazzo pode ser lido no link:

http://www.opiniaoenoticia.com.br/interna.php?id=21939

Francesco Matarazzo chegou ao Brasil em 1891, vindo de Castellabate, no sul da Itália. Ao contrário da maioria dos imigrantes italianos, que tinham baixo nível de instrução, ele era formado em direito. Chegou aqui com 27 anos de idade, acompanhado da mulher e dois filhos. Ao partir, investiu todas as suas economias em uma carga de banha de porco, então produto indispensável nas cozinhas, que pretendia vender ao chegar. Seu navio afundou perto da chegada a Santos e a família desembarcou no Brasil apenas com a roupa do corpo.

Matarazzo foi parar em Sorocaba, cidade do interior de São Paulo (uma curiosa coincidência é que dois anos depois chegaria à mesma cidade um menino português, futuro fundador do grupo Votorantim). Em 1892 ele começou sua vida comercial abrindo um armazém. Ele importava banha de porco e farinha de trigo para revender. Depois de algum tempo começou a criar porcos e produzir sua própria banha. Em seguida começou a fabricar latas para embalar a banha. Aflito com o desperdício dos ossos de porco, que eram jogados fora, começou a usá-los para fabricar botões de roupa e barbatanas para colarinhos.

Mais tarde mudou-se para São Paulo onde instalou um grande moinho de trigo e de massas alimentícias. Etapa seguinte, criou uma tecelagem para fabricar os sacos de algodão em que a farinha era embalada. A diversificação continuou com serraria, mais tarde fábrica de cimento, indústria química e de celulose. Ao morrer em 1937, aos 82 anos de idade, Matarazzo deixou o maior grupo industrial da América Latina, com 180 fábricas.

Francesco legou o título de conde e o comando de grupo ao décimo segundo de seus 13 filhos, Francisco. Os outros filhos não se conformaram com isso e Chiquinho, como era conhecido, gastou muito tempo e dinheiro comprando ações dos irmãos até se tornar majoritário. Chiquinho não teve o brilho do pai e o grupo entrou em decadência.

Quando ele morreu, em 1977, deixou o controle para a filha Maria Pia, desprezando os filhos homens que trabalhavam com ele há muitos anos. Dois dos irmãos entraram na justiça tentando, sem sucesso, anular o testamento. A escolha do pai foi certamente por razões afetivas — quando fez o primeiro testamento deixando o controle para a filha caçula esta tinha apenas doze anos. Não se pode dizer que tivesse demonstrado competência empresarial.

Em 1984 Maria Pia pediu concordata, e hoje nada resta do grande grupo a não ser dívidas e alguns imóveis. Em 1996 um forte temporal derrubou um velho casarão na Avenida Paulista, em São Paulo. Era a antiga residência dos Matarazzo, já abandonada fazia tempo.

Razões do fracasso: a nosso ver, duas.

1. Estratégia: o caminho de diversificar e verticalizar produzindo a mais variada gama de produtos funcionou no começo do século XX, quando não havia indústrias no país. À medida que foi surgindo competição, em qualquer dos seus produtos o grupo passou a ter alguma ou algumas empresas mais competentes do que ele. Aqui entra o conceito americano da “core competence”: uma empresa deve se dedicar àquilo em que ela é especialmente boa.

2. Sucessão: nas duas sucessões o pai escolheu um filho em detrimento dos outros, de maneira injusta e criando conflitos. Na primeira vez pode ter sido por razões objetivas, pois Chiquinho trabalhava com o pai fazia tempo. Na segunda foi puramente por razões afetivas. A sucessão mal planejada trouxe conflitos, desviando tempo e recursos da empresa.

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